Gigante mundial das frutas, Peru transforma deserto em pomar produtivo

Sebastián Castaeda / Getty

A ascensão do setor agroexportador e os desafios hídricos enfrentados.

O Peru, antes visto como deserto, agora brilha como gigante na agroexportação de frutas, mas enfrenta sérios desafios hídricos.

O Peru, uma nação que historicamente enfrentava desafios na agricultura devido à sua geografia árida e desértica, surpreendeu o mundo ao se tornar um dos maiores exportadores de frutas. Essa transformação notável não é apenas um triunfo econômico, mas também um reflexo das complexidades que envolvem a gestão dos recursos naturais, especialmente a água.

Ascensão do setor agroexportador

O deserto de Ica, antes considerado improdutivo, agora é sinônimo de inovação e sucesso na agroindústria. Desde o início do século XXI, o país experimentou um crescimento exponencial nas exportações de frutas, como uvas, mirtilos, mangas e abacates, que se tornaram essenciais para mercados na América do Norte, Europa e Ásia. Dados do Ministério do Desenvolvimento Agrário e Irrigação do Peru revelam que as exportações agrícolas cresceram a uma média anual de 11%, atingindo um recorde de US$ 9,185 bilhões em 2024. Essa evolução fez do Peru o maior exportador mundial de uvas e mirtilos.

Tecnologia e inovação na agricultura

A chave para essa transformação foi a adoção de tecnologias agrícolas avançadas, como sistemas de irrigação por gotejamento e projetos de transposição de água. A capacidade de produzir durante os períodos em que o hemisfério norte enfrenta limitações climáticas deu ao Peru uma vantagem competitiva. Além disso, o desenvolvimento de variedades de frutas adaptadas ao clima local permitiu ao país competir em mercados dominados por potências tradicionais.

Desafios na gestão da água

Apesar do sucesso econômico, o crescimento do setor agroexportador trouxe à tona preocupações sobre a sustentabilidade, especialmente em relação à escassez de água. A região de Ica, uma das mais áridas do Peru, depende quase exclusivamente de aquíferos subterrâneos. Com a crescente demanda por água para a agricultura intensiva, muitos pequenos agricultores enfrentam dificuldades para competir com grandes empresas que têm acesso a recursos hídricos mais seguros e eficientes.

  • Conflitos hídricos: A dependência do aquífero subterrâneo gerou tensões, com pequenos assentamentos dependendo de caminhões-pipa para água potável, enquanto grandes fazendas utilizam poços profundos e sistemas avançados de irrigação.
  • Regulamentação e fiscalização: A Autoridade Nacional de Água (ANA) já havia identificado riscos de superexploração, mas a implementação de monitoramentos rigorosos ainda enfrenta desafios, principalmente em áreas rurais onde o acesso a água se torna cada vez mais difícil.

Impactos sociais e econômicos

Com o crescimento da agroindústria, as exportações agrícolas passaram a representar 4,6% do PIB peruano em 2024, um aumento significativo em relação a 2020. Contudo, a formalização do trabalho e o aumento da renda não foram uniformes. Pequenos produtores muitas vezes se veem compelidos a vender suas terras, alterando a estrutura social e econômica da região. Embora muitos ainda encontrem oportunidades de emprego na agroindústria, as disparidades entre grandes e pequenos produtores se acentuam.

O futuro da agricultura peruana

A sustentabilidade do modelo de agroexportação do Peru é uma questão urgente. Sem uma gestão hídrica eficaz, o motor econômico que transformou Ica em um polo agroexportador pode entrar em colapso. Especialistas alertam que o país, ao exportar frutas, também está exportando água, um recurso vital que deve ser preservado para a população local.

A necessidade de equilibrar a produção agrícola e a proteção dos ecossistemas é clara. Se não forem adotadas políticas robustas para a gestão da água, o futuro da agricultura no Peru, por mais promissor que pareça, pode se tornar inviável.

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