O setor imobiliário brasileiro iniciou 2026 com otimismo, impulsionado pela expectativa de cortes na taxa de juros, que chegou a 15% em 2025. Contudo, essa perspectiva foi abalada com o anúncio do governo federal sobre a liberação de até 20% do saldo do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) para a quitação de dívidas, o que gerou incertezas no mercado imobiliário.
Na manhã de segunda-feira (04), foi lançado o programa Desenrola 2.0, que visa facilitar a renegociação de dívidas. A medida, que pretende beneficiar a população endividada, foca em dívidas com juros elevados, como aquelas de cartão de crédito e cheque especial. Com a autorização para uso de parte do FGTS, a expectativa é que os saques possam atingir entre R$ 4,5 bilhões e R$ 8,2 bilhões, impactando diretamente o financiamento habitacional.
A Associação Brasileira de Incorporadoras (ABRAINC) expressou sua preocupação em relação a essa iniciativa. A entidade simulou que, com os saques do FGTS, entre 59 mil e 107 mil empregos diretos e indiretos podem ser eliminados no setor habitacional. Além disso, estima-se que entre 25 mil e 46 mil famílias deixarão de ter acesso a novas moradias.
Em termos financeiros, a ABRAINC prevê que o Estado pode perder entre R$ 1,4 bilhão e R$ 2,4 bilhões em arrecadação devido à redução de negócios no setor. Essa situação pode resultar em uma queda de até R$ 10,7 bilhões no PIB, uma vez que a demanda por habitação deve ser afetada negativamente.
O FGTS é fundamental para o financiamento imobiliário no Brasil, respondendo por R$ 138 bilhões dos R$ 324 bilhões em novos financiamentos em 2025. Esse montante representa cerca de 43% do total, conforme dados da Abecip. Além disso, atualmente, o estoque do FGTS é de R$ 702 bilhões, o que representa 27% da carteira total de R$ 6,23 trilhões, ficando atrás apenas da poupança, que tem 29%.
O orçamento do FGTS para 2026 é de R$ 160,5 bilhões, sendo que quase 90% desse valor, ou R$ 144,5 bilhões, está destinado à habitação. Dentro desse total, cerca de R$ 13 bilhões são direcionados a subsídios, que ajudam na redução do valor de entrada para a compra de imóveis, especialmente para famílias de menor renda.

