Uma medicação experimental desenvolvida para bloquear a produção de gordura no fígado pode se tornar uma das principais armas no combate a uma das doenças hepáticas que mais crescem no mundo atualmente.
Pesquisadores da Escola de Medicina da Universidade da Califórnia em San Diego divulgaram resultados considerados promissores envolvendo o medicamento ION224, criado para tratar a esteato-hepatite associada à disfunção metabólica, conhecida pela sigla MASH, uma forma mais agressiva da doença hepática gordurosa associada principalmente à obesidade e ao diabetes tipo 2.
A condição pode evoluir silenciosamente durante anos sem apresentar sintomas perceptíveis. Com o tempo, o acúmulo excessivo de gordura dentro das células do fígado pode provocar inflamação, destruição progressiva do tecido hepático e formação de cicatrizes, processo chamado fibrose. Nos casos mais graves, a doença pode evoluir para cirrose, insuficiência hepática e até câncer de fígado.
Os resultados do estudo chamaram atenção da comunidade científica porque o medicamento atua diretamente em um mecanismo biológico relacionado ao acúmulo de gordura no fígado. Diferentemente de muitos tratamentos atuais, que se concentram principalmente na perda de peso ou no controle indireto dos sintomas, o ION224 busca interferir diretamente no processo que causa a doença.
O medicamento age bloqueando uma enzima chamada DGAT2, responsável por participar da produção e armazenamento de gordura no fígado. Cientistas acreditam que o excesso de gordura acumulada nas células hepáticas desencadeia uma reação em cadeia que provoca inflamação crônica, danos celulares e cicatrização do órgão ao longo do tempo.
Segundo Rohit Loomba, médico responsável principal pelo estudo e chefe da divisão de gastroenterologia e hepatologia da Universidade da Califórnia em San Diego, o bloqueio da enzima representa um avanço importante no tratamento da doença. De acordo com ele, ao interromper a ação da DGAT2, o medicamento interfere diretamente na origem do problema, reduzindo tanto o acúmulo de gordura quanto os processos inflamatórios dentro do fígado.
Os pesquisadores destacam que essa estratégia pode ser especialmente relevante porque muitos tratamentos atualmente utilizados para doenças hepáticas gordurosas dependem fortemente da redução de peso corporal. Nos testes realizados, o ION224 demonstrou capacidade de melhorar a saúde do fígado mesmo em pacientes que não apresentaram perda significativa de peso, sugerindo que futuramente o medicamento poderá ser utilizado em conjunto com terapias populares voltadas ao emagrecimento, incluindo medicamentos da classe dos agonistas do GLP-1, utilizados no tratamento do diabetes tipo 2 e da obesidade.
O estudo clínico de fase IIb contou com a participação de 160 adultos nos Estados Unidos diagnosticados com MASH e fibrose hepática leve ou moderada. Durante aproximadamente 51 semanas, os participantes receberam aplicações mensais do medicamento em diferentes dosagens ou placebo, substância sem efeito terapêutico utilizada para comparação científica.
Os pacientes que receberam a maior dose do medicamento apresentaram alguns dos resultados mais expressivos. Aproximadamente 60% deles demonstraram melhora significativa nos indicadores de saúde hepática em comparação aos participantes que receberam placebo. Os pesquisadores também relataram que o tratamento foi geralmente bem tolerado, sem efeitos colaterais graves diretamente relacionados ao medicamento durante o período observado.
O estudo é considerado importante porque representa a primeira evidência de que o bloqueio da enzima DGAT2 através de uma terapia antisense pode melhorar tanto a inflamação quanto a fibrose hepática em pacientes com MASH. Terapias antisense são tratamentos genéticos que utilizam pequenas sequências de material genético para bloquear a produção de proteínas específicas associadas a determinadas doenças.
Outro aspecto relevante destacado pelos cientistas foi a ausência de alguns efeitos adversos observados em medicamentos anteriores voltados à redução de gordura no fígado, especialmente aumentos perigosos nos níveis de triglicerídeos, tipo de gordura presente na corrente sanguínea que, em excesso, eleva o risco cardiovascular.
A MASH, anteriormente conhecida como esteato-hepatite não alcoólica ou NASH, faz parte de um grupo mais amplo de doenças atualmente denominado doença hepática gordurosa associada à disfunção metabólica, identificada pela sigla MASLD. O crescimento dessas doenças acompanha o aumento global dos casos de obesidade, sedentarismo, resistência à insulina e diabetes tipo 2.
Estimativas citadas pelos pesquisadores indicam que aproximadamente uma em cada quatro pessoas adultas no mundo pode apresentar algum grau de doença hepática gordurosa. Somente nos Estados Unidos, mais de 100 milhões de pessoas convivem com a condição. Um dos maiores desafios é que muitos pacientes desconhecem completamente o problema, já que os sintomas frequentemente só aparecem quando o fígado já sofreu danos importantes.
Nos estágios iniciais, a doença pode provocar poucos sinais além de cansaço, desconforto abdominal leve ou alterações discretas em exames laboratoriais. Conforme evolui, o fígado perde gradualmente sua capacidade de funcionamento adequado, podendo resultar em cirrose, insuficiência hepática e necessidade de transplante em casos avançados.
O interesse científico na enzima DGAT2 aumentou nos últimos anos porque ela desempenha papel central em um processo chamado lipogênese de novo, mecanismo utilizado pelo organismo para produzir gordura dentro do fígado. Pesquisadores consideram atualmente que esse processo é um dos principais motores da inflamação e da fibrose observadas na MASH.
Segundo Loomba, trata-se do primeiro medicamento desse tipo a demonstrar impacto biológico significativo na doença. Ele afirma que, caso os resultados sejam confirmados em estudos maiores de fase III, poderá surgir finalmente uma terapia direcionada capaz de interromper e talvez até reverter danos hepáticos antes que a doença atinja estágios potencialmente fatais.
Os pesquisadores também acreditam que os tratamentos futuros provavelmente utilizarão estratégias combinadas, reunindo medicamentos direcionados ao fígado, como o ION224, com terapias voltadas ao emagrecimento, melhora da resistência à insulina e controle metabólico geral.
A próxima etapa do desenvolvimento será a realização de estudos clínicos maiores, conhecidos como testes de fase III. Essas pesquisas envolverão um número maior de participantes e terão como objetivo confirmar a segurança e eficácia do medicamento antes que órgãos reguladores avaliem uma possível aprovação para uso médico amplo.
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Fonte:Paraná Jornal

