Após a exibição de Ainda Estou Aqui no Festival de Veneza há dois anos, o evento italiano teve a participação de Retorno a Buenos Aires, que foi o último filme a ser apresentado na competição oficial, encerrada no sábado, dia 11 de setembro. Este longa é uma co-produção entre Brasil e Itália, sob a direção do ítalo-chileno Marco Bechis, e foi filmado em grande parte em Porto Alegre, contando com a atriz Paula Cohen, nascida no Uruguai, no elenco. O gaúcho Eduardo Hoy também participa, interpretando o protagonista na juventude, que é vivido por Adriano Giannini.
A narrativa do filme gira em torno de um ex-militante de esquerda argentino que, após ser preso e torturado durante a ditadura, é convidado a testemunhar em um processo contra os militares anos depois. Exilado na Itália, ele precisa retornar a Buenos Aires para depor sobre os traumas vividos aos 20 anos. A juíza Desideria Losada é interpretada por Paula Cohen, que teve que se aprofundar em pesquisas sobre os processos de 1985 que resultaram na condenação de militares.
As filmagens em Porto Alegre foram resultado de uma escolha que considerou tanto a vontade do diretor quanto o contexto político atual Na Argentina. Cibele Amaral, uma das produtoras do filme, destaca que Bechis tinha um desejo de voltar a filmar no Brasil, já que em 2008 ele realizou Terra Vermelha em Mato Grosso do Sul. Contudo, as condições para filmar Na Argentina, especialmente com a administração de Javier Milei, tornaram a capital gaúcha uma opção viável.
Porto Alegre foi escolhida por suas semelhanças urbanas com Buenos Aires, sendo vistas em diversas tomadas aéreas. Além disso, a produção utilizou táxis envelopados para replicar os típicos carros da capital argentina. A maior parte das filmagens ocorreu em ambientes fechados, o que facilitou a produção, conforme mencionam os produtores André Ristum e Patrick de Jongh.
A atriz Paula Cohen, com experiência no teatro e fluência em espanhol, comentou sobre a complexidade de interpretar uma juíza inspirada em figuras reais. Ela relembra que, quando criança no Uruguai, ouvia relatos sobre a ditadura e as consequências que ela trouxe. Bechis ressalta que a ferida causada por esses regimes militares ainda não foi totalmente curada na América Latina, evidenciando a necessidade de lembrar e discutir o passado.
O filme Retorno a Buenos Aires, portanto, não é apenas uma obra cinematográfica, mas também um importante veículo de reflexão sobre a história recente da Argentina e os traumas que ainda persistem na memória coletiva dos países latino-americanos.

