A campanha eleitoral de 2024 se aproxima e, com ela, surgem reflexões sobre as ações do governo que, embora não surpreendam, são recebidas com uma naturalidade inquietante. A 17 dias do primeiro turno, o presidente Lula anunciou um reajuste de 15% no Bolsa Família, um aumento que será creditado na conta dos beneficiários exatamente na semana do segundo turno.
Em 25 de setembro, o governo assinou uma medida provisória (MP) que proíbe as apostas, enquanto, a 16 dias da votação, decidiu zerar os impostos federais sobre a gasolina por 30 dias. Além disso, o governo busca aprovar a proposta que extingue a escala 6×1 no Senado, como ressaltou o ministro José Guimarães, com urgência para ser implementada antes do segundo turno. Essa pressa, que não foi observada anteriormente, levanta questionamentos sobre a verdadeira intenção por trás dessas medidas.
É importante reconhecer que corrigir benefícios em resposta à inflação é uma ação legítima e que a redução de impostos sobre combustíveis em tempos de crise pode ser considerada defensável. Contudo, a questão central não é o conteúdo das ações, mas sim o timing. Após três anos sem reajuste, a medida surge na semana das eleições, o que provoca desconfiança sobre a real motivação por trás do ato, sugerindo que se trata mais de uma estratégia eleitoral do que de uma política social genuína.
O caso das apostas é particularmente emblemático. O governo, que anteriormente regulamentou o setor e arrecadou R$ 30 milhões em licenças, agora se volta contra as apostas, alegando que elas representam um mal. Se realmente fossem consideradas prejudiciais, a proibição deveria ter sido anunciada para 2024, e não no atual contexto eleitoral. Essa mudança de posição parece ser uma tentativa de ganhar popularidade.
Embora alguns possam argumentar que tais ações se configuram como compra de votos, tecnicamente não se enquadram nessa definição legal, pois não há troca de dinheiro diretamente pelo voto. No entanto, a situação é ainda mais preocupante: as medidas são implementadas publicamente, dentro da legalidade e utilizando recursos que pertencem aos eleitores. O governo não está doando, mas simplesmente devolvendo o que deveria ser parte do direito do cidadão.
Esse padrão não se restringe a um único governo. Quando o ex-presidente Bolsonaro promoveu a desoneração dos combustíveis antes das eleições de 2022, Fernando Haddad criticou a ação como demagógica. Essa crítica se mostra pertinente, pois a ética das ações governamentais não pode variar de acordo com a administração do momento.

