Os recentes conflitos no Oriente Médio, especialmente os ataques dos EUA e de Israel ao Irã, têm o potencial de alterar significativamente o cenário do setor energético mundial. Esses eventos estão inseridos em um contexto já marcado por incertezas geopolíticas, em uma região que é responsável por uma parcela significativa da produção global de petróleo e gás. A análise indica que essa guerra representa a maior disrupção na oferta de petróleo e gás na história, superando crises anteriores, como as dos anos 1970, conforme apontado pela Agência Internacional de Energia (AIE).
A intersecção entre sustentabilidade ambiental e estratégia geopolítica, evidenciada pela invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022, poderá impactar ainda mais a transição energética global. Especialistas afirmam que o carvão, por ser a fonte fóssil mais poluente, pode ter um período de sobrevida, enquanto a energia nuclear pode se expandir para atender à crescente demanda, especialmente com o aumento da utilização de datacenters de inteligência artificial (IA). Apesar de o Brasil ser considerado um país relativamente bem preparado para enfrentar essas mudanças, a realidade é que os riscos se apresentam em diversas frentes.
No último dia 13, durante a abertura das reuniões de primavera do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial, as principais autoridades desses organismos, juntamente com o diretor-executivo da AIE, fizeram um alerta sobre os impactos da guerra. Foi discutido que o efeito do conflito é substancial e afeta desproporcionalmente os países importadores de energia, especialmente aqueles de baixa renda. A declaração enfatizou que o choque gerou um aumento nos preços do petróleo, gás e fertilizantes, acarretando preocupações sobre a segurança alimentar e a possibilidade de perda de empregos.
A Petrobras anunciou um aumento de 18% no preço do querosene de aviação, refletindo as pressões inflacionárias sobre o setor energético nacional. Especialistas, como Toro, destacam que, embora o Brasil esteja melhor posicionado do que muitos países para lidar com essa crise, os riscos inflacionários relacionados aos combustíveis dependerão da duração do conflito e da situação do ciclo hidrológico.
Clarissa Lins, do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), abordou ainda as “oportunidades perdidas” no que diz respeito à matriz logística do país, mencionando a necessidade de reduzir a dependência do transporte rodoviário movido a diesel. Essa questão se torna ainda mais relevante à luz da greve de caminhoneiros registrada em 2018. Além disso, o setor elétrico brasileiro enfrenta desequilíbrios, como a geração excessiva de energia eólica e solar que não está sendo adequadamente transmitida por todo o território nacional.
Do ponto de vista geopolítico, um cenário internacional caracterizado por uma ordem menos multilateral, permeada por tensões bélicas e expansões territoriais — como a abordagem dos EUA em relação a Nicolás Maduro na Venezuela e as declarações de Donald Trump sobre a Groenlândia e o Canadá — pode representar um risco adicional para o Brasil, que se posiciona como um país emergente sem uma robusta capacidade de defesa militar.

