Um projeto de lei apresentado por seis deputados de direita no Chile, intitulado "Escute Seu Coração", está gerando intensas reações tanto no país quanto No Brasil. A proposta obriga os médicos a oferecer às pacientes que solicitam a interrupção da gravidez a opção de ouvir os batimentos cardíacos do embrião ou do feto antes do procedimento. Caso a paciente se recuse, o médico poderá se negar a realizar o aborto. A medida, que está em análise na primeira fase do Congresso chileno, estabelece um novo protocolo que deve ser registrado no prontuário médico.
Desde 2017, o Chile permite a interrupção da gravidez apenas em três situações: risco de morte para a mãe, gravidez resultante de estupro ou malformação fetal incompatível com a vida. O deputado Cristóbal Urruticoechea, do Partido Nacional Libertário, lidera a proposta e é apoiado por outros parlamentares, incluindo Álvaro Jofré, Chiara Barchiesi, Claudia Reyes e Ximena Ossandón, todos alinhados ao presidente conservador José Antonio Kast. Urruticoechea defende que ouvir os batimentos cardíacos pode ajudar na decisão da mulher, afirmando que a proposta não proíbe o aborto, mas oferece mais informação.
A ex-ministra da Mulher e da Igualdade de Gênero do Chile, Antonia Orellana, criticou a proposta, chamando-a de "crueldade legislativa". Ela ressaltou que exigir que mulheres e meninas ouçam os batimentos cardíacos antes de um aborto legal pode causar sofrimento adicional, especialmente para vítimas de violência sexual ou gestantes com fetos inviáveis. Orellana também expressou sua preocupação com o apoio à proposta por parte de parlamentares mulheres.
A discussão em torno do projeto chileno já provocou Mobilização No Brasil, antes mesmo de uma votação em Santiago. Movimentos feministas e partidos de esquerda estão utilizando as redes sociais para alertar sobre a proposta, que consideram parte de uma ofensiva conservadora na América Latina. A preocupação é que ideias semelhantes possam ganhar força No Brasil, principalmente em um contexto eleitoral polarizado.
A direita tem conquistado posições significativas nos legislativos de diversos países da América Latina, com a ascensão de líderes como Javier Milei na Argentina, que introduziu um discurso libertário. O campo progressista No Brasil e na região teme que restrições ao aborto legal, mesmo que de forma indireta como no caso chileno, possam encontrar respaldo parlamentar em um cenário onde o debate ainda não é totalmente consolidado.
O projeto também ecoa legislações similares já adotadas em estados dos Estados Unidos, como Texas, Kentucky, Arizona, Geórgia e Mississippi, que exigem que as mulheres ouçam os batimentos do feto antes de realizarem um aborto. No Brasil, houve uma tentativa de aprovar uma proposta semelhante em 2023 na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, liderada pelo então vereador Carlos Bolsonaro, que não obteve sucesso.

