Recentemente, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva gerou polêmica ao declarar que nunca teve "tempo para depressão", justificando essa afirmação com a necessidade de trabalhar. Embora essa frase possa refletir sua própria experiência, é fundamental que tais declarações sejam analisadas de forma responsável, especialmente quando provêm da figura máxima do Executivo.
Como psicóloga, é importante esclarecer que a depressão não se resume à falta de trabalho, preguiça ou ausência de força de vontade. Trata-se de um transtorno mental sério que pode afetar profundamente a vida emocional, familiar, social e profissional dos indivíduos. Dados do Ministério da Saúde indicam que a prevalência de depressão ao longo da vida no Brasil é de aproximadamente 15,5%. Globalmente, a Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que cerca de 332 milhões de pessoas convivem com essa condição.
Um dado relevante que merece destaque é que, conforme a OMS, a depressão e a ansiedade causam a perda de aproximadamente 12 bilhões de dias de trabalho anualmente, o que representa em torno de 1 trilhão de dólares em prejuízos para a economia mundial. Isso evidencia que, frequentemente, não é a falta de trabalho que leva à depressão, mas sim o impacto negativo da doença na capacidade de trabalhar.
Embora o trabalho digno possa ter um papel positivo na saúde mental, oferecendo propósito e pertencimento, a própria OMS reconhece que ambientes de trabalho inadequados e sobrecarga podem ser prejudiciais à saúde. Assim, afirmar que alguém não teve "tempo para depressão" devido à necessidade de trabalhar pode transmitir uma mensagem perigosa para aqueles que lidam com essa doença.
Durante muitas décadas, pessoas que sofrem de depressão foram alvo de frases como: "Isso é falta do que fazer", "você precisa reagir" ou "trabalhe que isso passa". Esse tipo de preconceito precisa ser combatido e não reforçado.
A OMS estima que mais de 720 mil pessoas morrem por suicídio anualmente em todo o mundo. Portanto, a saúde mental deve ser abordada com seriedade e não de forma simplista. Não se pode afirmar que Lula tenha negado a existência da depressão, mas sua experiência pessoal não deve ser vista como um parâmetro para entender um transtorno que afeta milhões.

