No conto "Silver Blaze", de Arthur Conan Doyle, Sherlock Holmes desvenda um mistério a partir de um detalhe que passou despercebido: o cão que não latiu. Analogamente, no Itamaraty sob a gestão de Mauro Vieira, o silêncio em torno dos arquivos gera questionamentos sobre as decisões tomadas, os motivos do sigilo e os beneficiados por essas escolhas. O que o Ministério das Relações Exteriores (MRE) revela não é o que é declarado em fóruns internacionais, mas sim o que permanece oculto em cofres, com carimbos que indicam sigilo por prazos que variam de cinco a quinze anos, além de justificativas que se repetem sem substância.
O uso do sigilo é uma prática legítima e necessária na diplomacia, pois países não discutem interesses sensíveis sob a luz pública, evitando comprometer negociações ou relações exteriores. Contudo, a situação se complica quando essa excepcionalidade é utilizada de forma banal, dificultando a distinção entre a proteção do interesse nacional e a conveniência de quem está no poder. Nesse contexto, a diplomacia pode acabar servindo mais para proteger o governo de críticas internas do que para resguardar o país de avaliações externas.
Recentemente, em 22 de setembro, durante a Assembleia Geral das Nações Unidas, 14 países da América Latina e do Caribe assinaram uma declaração com os Estados Unidos, no âmbito do Escudo das Américas. Esse pacto incluiu organizações como o PCC e o Comando Vermelho em uma lista de 24 grupos narcoterroristas, que estarão sujeitos a congelamento de bens e restrições de visto. Os países signatários incluem Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, República Dominicana, Equador, El Salvador, Guiana, Honduras, Panamá, Paraguai, Peru e Trinidad e Tobago, enquanto Brasil e México não participaram. Informações indicam que nem o Palácio do Planalto nem o Itamaraty estavam cientes da inclusão das facções brasileiras na declaração.
O presidente Lula deixou a sede das Nações Unidas sem ceder em questões de soberania, adotando a postura de que a defesa do país deve se dar pela luta contra o crime, ao invés de evitar sanções internacionais. Essa posição abre espaço para que o Brasil retome a liderança no debate sobre a Venezuela, um tema que é relevante por razões geográficas, econômicas e históricas. Além disso, busca-se restaurar a função do Itamaraty, como idealizado por Barão do Rio Branco, que é servir ao interesse nacional.
O silêncio que perdurou por quatro anos pode estar prestes a mudar. A partir de janeiro de 2027, as chaves dos cofres do Itamaraty podem estar nas mãos de indivíduos que não têm nada a ocultar. Nesse cenário, o Palácio dos Arcos poderá voltar a ser um espaço que não armazena apenas os interesses de um partido, mas que se dedica permanentemente ao interesse nacional, permitindo que a transparência prevaleça.
Marcos Degaut, ex-Secretário Especial Adjunto de Assuntos Estratégicos da Presidência da República e ex-Secretário de Produtos de Defesa do Ministério da Defesa, ressalta que é fundamental que a luz entre nas janelas do Itamaraty, permitindo que a sociedade compreenda as decisões que afetam o país.

