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Sistema de IA ajuda a identificar inflamações e danos causados pela obesidade

Pesquisadores do centro Helmholtz Munich, da Universidade Ludwig Maximilians de Munique e de outras instituições parceiras desenvolveram um sistema de inteligência artificial capaz de mapear alterações relacionadas a doenças em todo o corpo de camundongos com nível de detalhe celular. A nova plataforma, chamada MouseMapper, permitiu aos cientistas identificar inflamações disseminadas pelo organismo e danos […]


Pesquisadores do centro Helmholtz Munich, da Universidade Ludwig Maximilians de Munique e de outras instituições parceiras desenvolveram um sistema de inteligência artificial capaz de mapear alterações relacionadas a doenças em todo o corpo de camundongos com nível de detalhe celular. A nova plataforma, chamada MouseMapper, permitiu aos cientistas identificar inflamações disseminadas pelo organismo e danos nervosos até então desconhecidos associados à obesidade.

O estudo também encontrou padrões moleculares semelhantes em tecidos humanos, indicando que parte dos danos nervosos relacionados à obesidade observados nos animais pode ocorrer também em pessoas. Os resultados chamaram atenção por oferecer uma nova forma de investigar doenças complexas que afetam vários órgãos simultaneamente.

A obesidade é atualmente reconhecida como uma condição que vai muito além do aumento de peso corporal. Além das alterações metabólicas, ela pode modificar o funcionamento do sistema imunológico, afetar estruturas nervosas e provocar mudanças em tecidos distribuídos por todo o organismo. Esses impactos estão relacionados ao aumento do risco de doenças como diabetes tipo 2, problemas cardiovasculares, acidente vascular cerebral, neuropatias e diferentes tipos de câncer.

Apesar disso, cientistas enfrentavam dificuldades para analisar, de maneira integrada, como essas alterações acontecem ao longo do corpo inteiro. Até então, a maioria dos estudos observava apenas órgãos específicos isoladamente, como fígado, músculos ou tecido adiposo.

Para superar essa limitação, a equipe liderada pelo professor Ali Ertürk, diretor do Instituto de Inteligência Biológica do Helmholtz Munich e professor da Universidade Ludwig Maximilians, desenvolveu o MouseMapper. O sistema utiliza algoritmos avançados de aprendizado profundo, uma área da inteligência artificial inspirada no funcionamento das redes neurais humanas, para analisar enormes volumes de imagens biológicas de alta resolução.

A plataforma consegue identificar automaticamente 31 tipos diferentes de órgãos e tecidos, além de mapear nervos e células do sistema imunológico espalhados pelo organismo inteiro. Isso permite aos pesquisadores visualizar simultaneamente como diferentes sistemas do corpo são afetados por uma doença.

Segundo os pesquisadores, o MouseMapper foi construído sobre um chamado “modelo fundamental”, estrutura de inteligência artificial treinada para reconhecer padrões complexos e que consegue aplicar o conhecimento aprendido a situações além das usadas no treinamento inicial.

Para criar os mapas corporais completos, os cientistas utilizaram marcadores fluorescentes capazes de iluminar nervos e células imunológicas quando observados sob microscópios especiais. Em seguida, aplicaram técnicas de clareamento de tecidos que tornam os corpos dos camundongos praticamente transparentes sem destruir os sinais fluorescentes.

Esse processo permitiu que os pesquisadores enxergassem profundamente o interior dos animais sem necessidade de cortar os tecidos em pequenas amostras, algo que normalmente limita a observação da interação entre diferentes órgãos.

Depois disso, os cientistas utilizaram microscopia avançada por folha de luz, técnica que produz imagens tridimensionais extremamente detalhadas. O procedimento gerou conjuntos gigantescos de dados contendo dezenas de milhões de estruturas celulares distribuídas pelo organismo inteiro dos animais.

O MouseMapper analisou automaticamente essas imagens, identificando regiões anatômicas, redes nervosas e agrupamentos de células imunológicas ao longo de todo o corpo. Com isso, os pesquisadores conseguiram localizar exatamente onde estavam ocorrendo inflamações e danos teciduais em órgãos como tecido adiposo, músculos, fígado e nervos periféricos.

Uma das descobertas que mais chamou atenção surgiu quando os pesquisadores analisaram camundongos alimentados com dieta rica em gordura, utilizada para provocar obesidade e alterações metabólicas semelhantes às observadas em humanos.

O sistema revelou mudanças extensas tanto na organização das células imunológicas quanto na estrutura dos nervos distribuídos pelo organismo. Entre os achados mais relevantes estava uma alteração significativa no nervo trigêmeo, um dos principais nervos da face humana e animal, responsável por sensações faciais e por parte dos movimentos relacionados à mastigação.

Nos camundongos obesos, os pesquisadores observaram uma redução importante nos ramos e terminações nervosas desse sistema sensorial, indicando possível comprometimento da função nervosa. Testes comportamentais realizados nos animais reforçaram essa hipótese, mostrando que os camundongos obesos apresentavam menor resposta a estímulos sensoriais em comparação aos animais magros.

A equipe aprofundou então a análise em uma estrutura chamada gânglio trigeminal, região que contém os corpos celulares dos neurônios responsáveis pela sensibilidade facial. Utilizando técnicas de proteômica espacial — método que analisa proteínas em locais específicos dos tecidos — os pesquisadores identificaram alterações moleculares associadas à inflamação e remodelação nervosa.

O dado considerado mais importante foi que muitas dessas mesmas assinaturas moleculares também foram encontradas em tecidos trigeminais humanos provenientes de pessoas com obesidade. Isso sugere que as alterações nervosas observadas nos camundongos podem ocorrer de maneira semelhante no organismo humano.

Segundo a pesquisadora Doris Kaltenecker, cientista do Instituto de Diabetes e Câncer do Helmholtz Munich e autora principal do estudo, os resultados revelaram mudanças estruturais e moleculares até então desconhecidas no sistema nervoso facial associado à obesidade. Ela destacou que descobertas desse tipo dificilmente seriam possíveis utilizando métodos tradicionais focados apenas em órgãos isolados.

Os pesquisadores acreditam que o MouseMapper poderá se tornar uma ferramenta importante para o estudo de doenças complexas que afetam vários sistemas corporais ao mesmo tempo, incluindo diabetes, câncer, doenças neurodegenerativas e enfermidades autoimunes.

Ao contrário de métodos antigos, que normalmente analisam tecidos específicos separadamente, a nova plataforma oferece uma visão integrada do organismo inteiro, permitindo localizar regiões mais afetadas pelas doenças e entender como diferentes órgãos interagem entre si durante o desenvolvimento de problemas de saúde.

A equipe também disponibilizou os bancos de dados gerados pelo estudo para pesquisadores de diferentes partes do mundo, permitindo que outros cientistas investiguem as alterações provocadas pela obesidade em diversos órgãos e tecidos.

Segundo Ali Ertürk, o objetivo de longo prazo é construir modelos digitais extremamente detalhados de organismos vivos, conhecidos como “gêmeos digitais”. Esses modelos virtuais poderiam reproduzir o funcionamento do corpo saudável e doente em nível celular, permitindo que pesquisadores testem tratamentos e simulem doenças em computadores antes mesmo da realização de experimentos físicos.

Os cientistas acreditam que essa abordagem poderá ajudar na identificação precoce de alterações causadas por doenças, acelerar o desenvolvimento de novos tratamentos e reduzir a necessidade de experimentação animal em pesquisas futuras.

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Fonte:Paraná Jornal

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