As expectativas de alívio no mercado de fertilizantes, após a divulgação de que o Irã havia liberado o Estreito de Ormuz para navios comerciais, foram frustradas rapidamente. A situação se agravou com a negativa do regime iraniano em dialogar e a apreensão de um cargueiro por parte da Marinha dos Estados Unidos, comprometendo novamente a navegação na região.
Apesar da suposta abertura da passagem, as consequências do conflito no Oriente Médio já impactaram o mercado internacional de fertilizantes. A recuperação do fornecimento e a estabilização dos preços enfrentam obstáculos logísticos significativos, que, por sua vez, irão refletir na inflação dos alimentos para o consumidor. A área do Oriente Médio é responsável por cerca de 20% de todo o fertilizante comercializado globalmente, enquanto o Brasil, que depende da importação, adquire aproximadamente 85% de todo o adubo que consome, tornando o agronegócio do país vulnerável a essas tensões.
A normalização da logística no comércio exterior não deverá ocorrer de forma imediata, mesmo com a reabertura das rotas. De acordo com o especialista em agronegócio Marcello Brito, diretor acadêmico do FDC Agroambiental, a liberação dos navios bloqueados dependerá de garantias de segurança. Além disso, o processo de retirada de embarcações já carregadas na região em conflito e a espera pela chegada de novos navios complicam ainda mais a situação. "Não é como nas compras online de aplicativo, que chega no dia seguinte. O produtor lá em Roraima tem que pedir, e o navio tem que sair do Oriente Médio com o produto, chegar em Santos ou Paranaguá, e subir de caminhão. É uma logística complexa que leva meses para acontecer", explica Brito.
O Brasil também se vê em um quadro desafiador em relação à produção de fertilizantes, dependendo quase totalmente das importações, com 96% dos fertilizantes potássicos e 80% dos hidrogênios sendo adquiridos de outros países. Essa dependência gerou uma reação do governo federal, que busca reconstruir a indústria de fertilizantes nacional. Em entrevista ao jornal alemão Der Spiegel, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva destacou a importância de reduzir a dependência de insumos externos.
Entretanto, os dados atuais indicam um cenário adverso para as exportações brasileiras. Um levantamento da Warren Investimentos aponta que a exportação de adubos ou fertilizantes químicos caiu 17,25% no primeiro trimestre de 2026 em comparação ao mesmo período de 2025. Essa diminuição reflete a fragilidade do setor, que já enfrenta dificuldades antes da escalada das tensões no Oriente Médio.
Com a infraestrutura global de gás natural demandando anos para ser recuperada e as rotas marítimas levando meses para se readequarem, a conclusão é que o insumo caro utilizado na plantação atual impactará diretamente os preços dos alimentos nas prateleiras dos supermercados no futuro próximo.

