O aumento contínuo dos custos operacionais enfrentados pelos cafeicultores brasileiros no primeiro semestre de 2026 pode dificultar a queda dos preços do café, que vinha ocorrendo no último ano. Essa situação é impulsionada pela escalada nos preços de insumos agrícolas, em decorrência dos conflitos no Estreito de Ormuz, e pela expectativa de um El Niño severo no segundo semestre.
Airam Quiuqui, administrador do Sítio Jabuticaba, localizado em Águia Branca (ES), compartilhou suas preocupações durante uma expedição da Nescafé. Ele destacou que os efeitos do cenário geopolítico já impactam diretamente sua propriedade de 60 hectares, que se dedica ao cultivo de café. A fazenda, que fornece grãos para a Nestlé no Espírito Santo, serve como um reflexo das dificuldades enfrentadas pelo setor.
Um dos principais desafios relatados por Quiuqui é o aumento dos custos com fertilizantes, que subiram entre 30% e 40% nos últimos meses. Esse aumento é atribuído ao fechamento do Estreito de Ormuz, em razão do conflito entre Irã e Estados Unidos no Oriente Médio. O Sítio Jabuticaba utiliza, em média, 2 mil toneladas de fertilizantes por hectare ao longo do ciclo produtivo, o que torna a operação vulnerável às oscilações nos preços internacionais.
A dependência do Brasil em relação às importações de fertilizantes é alarmante, com cerca de 85% do que é consumido no país vindo do exterior, segundo a Associação Nacional para Difusão de Adubos (ANDA). Isso expõe o agronegócio brasileiro a crises logísticas, especialmente considerando que 30% das importações de fertilizantes têm origem na Rússia e precisam passar pelo Estreito de Ormuz.
Além dos desafios econômicos, as mudanças climáticas também têm gerado preocupações significativas. Quiuqui observou que os efeitos do El Niño em 2024 trouxeram temperaturas extremas, estiagens severas e estresse hídrico. Para ele, as mudanças climáticas não são mais um risco isolado, mas um desafio estrutural que requer práticas de agricultura regenerativa e conservação hídrica. No Sítio Jabuticaba, áreas começaram a ser destinadas à recomposição vegetal e proteção ambiental, visando melhorar a retenção de água e aumentar a resiliência térmica dos cafezais.
A adaptação às novas realidades climáticas tornou-se uma necessidade econômica. Quiuqui enfatiza que, sem água e proteção térmica, a produção de café está ameaçada. O foco do setor agora se volta para a janela climática entre agosto e outubro, um período crucial para a florada do café. A ocorrência de chuvas nesse intervalo será determinante para o potencial produtivo da próxima safra e, consequentemente, para o preço do café nos meses seguintes.

